pos verdade

Pós verdade:Isso tem algo a ver com você?

Pós verdade: você tem algo a ver com isso

As pessoas que conseguem espalhar suas ideias, independentemente de que ideias sejam, vencem – Seth Godin

Pós-verdade, termo que até pouco tempo atrás era restrito aos círculos acadêmicos, tomou de assalto discussões no mundo inteiro, especialmente sobre política. Mas o que, exatamente, quer dizer pós-verdade? Segundo o Dicionário Oxford, é um adjetivo que se relaciona, ou denota circunstancias nos quais fatos objetivos têm menos importância do que afirmações que crenças pessoais. Em termos práticos, uma ‘’verdade’’ que apela às emoções das pessoas, na qual elas escolhem acreditar porque ela se encaixa em certas crenças pessoais, que concedem a elas uma aparente verossimilhança. Mas que na realidade, não resistiriam a uma tentativa de comprovação. Ou seja, são mentiras.

pós verdade
Pos verdade. Como a disseminação de mentiras chegou ao ”estado da arte”

Pós-verdade x simples boato: mentira 2.0 x mentira 1.0

A mentira não é exatamente uma novidade, certo? Na primeira metade do século XX, o infame Joseph Goebbels já havia dito que uma mentira repetida mil vezes tornava-se verdade, no que ele parece ter acertado. Em 1938, o então desconhecido Orson Welles, ao dramatizar no rádio o clássico da ficção cientifica ‘’A Guerra dos Mundos’’, involuntariamente criou pânico entre milhões de norte-americanos, que acreditaram que a Terra estava sendo invadida por marcianos. Ou seja, tanto uma mentira contada mil vezes, como contada com competência uma única vez, por mais absurda que seja, é capaz de convencer os incautos. O que há de novo? A novidade está na maneira como a informação nasce e circula. Uma notícia que era divulgada em uma mídia tradicional como rádio, TV ou jornal tinha como origem uma empresa de mídia, com endereço conhecido e jornalista responsável. Qualquer notícia falsa, uma vez identificada, poderia ser facilmente desmentida e impedida de circular.

Pós-verdade: Como se geram os boatos 2.0.

A geração de notícias não é mais exclusividade dos veículos de imprensa. Todos nós, que temos uma conta em redes sociais, podemos ser geradores de conteúdo. Isso significa mais liberdade de expressão e mais democracia. Entretanto, há também os profissionais da pós verdade, que chegam ao nível de sofisticação de criar websites com as características visuais de um portal jornalístico sério, citar nomes de fontes que parecem ser reais, e até mesmo colocar algumas notícias verdadeiras. Tudo isso para dar verossimilhança a uma informação falsa.

Pós-verdade: Como circulam os boatos 2.0.

A circulação de boatos disseminados com técnicas de pós verdade depende dos seguintes fatores: Tecnologia, convicções e preferencias pessoais, e um certo descuido de quem recebe e retransmite. Tanto o Google como o Facebook identificam os assuntos que buscamos com frequência e o tipo de conteúdo com o qual interagimos, e nos oferecem mais vídeos, fotos e textos sobre esses temas. Esses mecanismos existem para tornar a nossa experiência de usuários mais agradável e eficiente, permitindo que achemos mais rapidamente o que nos interessa. Infelizmente, também é através deles que chegam até nos as informações falsas em formato pós verdade. Até aí, se desconfiarmos de uma informação, basta verificar com uma fonte conhecida e confiável, certo? Mas aí entra o fator humano.

O fator humano na pós-verdade

Cada um de nós tem seus valores e convicções. Ideias em que acredita e opiniões que sustenta. As suas verdades. E é uma característica do ser humano gostar de ter essas “verdades” reforçadas. Contestá-las pode ser um processo até doloroso para alguns de nós. É dessa característica que a disseminação de boatos utilizando técnicas de pós verdade se aproveita. Quando um conteúdo tem todas as características visuais de uma notícia verdadeira e parece estar de acordo com as nossas verdades pessoais, é muito provável que o compartilhemos em nossas redes sociais sem nos preocuparmos em verificar sua autenticidade. E assim se espalham os “boatos 2.0”, que compartilhados, são repetidos milhares, ou milhões de vezes.

Pós-verdade: Pode ser um problema de imagem corporativa?

Embora esse tipo de técnica sofisticada para disseminação de boatos seja, por enquanto, mais comum na política, ou para se fazer brincadeiras de mau-gosto, existe uma possibilidade real de se tornar também um problema para marcas e imagens de produtos. Especialmente em momentos que elas sejam relacionadas a assuntos que despertam o engajamento das pessoas.

Há risco para marcas e imagens corporativas?

Empresas de qualquer tamanho e ramo de atividade podem ser alvos de boatos divulgados com técnicas de pós verdade. Acusações de adulteração de produtos vendidos aos consumidores até a acusação de seus executivos estarem envolvidos em casos de corrupção seriam dois tipos de acusação que, na data em que escrevemos esse artigo, poderiam causar grandes estragos na reputação de marcas e produtos. Disseminar notícias falsas com esse tipo de acusação é crime, mas por mais que se consiga identificar e punir o autor com toda a força da lei, sempre existe a possibilidade de o conteúdo mentiroso continuar sendo compartilhado por um longo tempo, mesmo já tendo sido desmentido. Por mais que os administradores das redes sociais se comprometam a combater esse problema, ainda não se descobriu uma maneira eficaz de impedir a disseminação de notícias falsas. O que se pode recomendar então, são atitudes preventivas, que podem minimizar os efeitos de ações como essas.

E se houver verdade no boato?

Quando problemas de imagem decorrem de fatos reais, e a marca e os produtos estão no centro de acontecimentos noticiados pela imprensa séria e comentados pelo público, tem-se uma crise nas mãos, da qual os boatos serão apenas mais um fator. E com crises, deve-se lidar da maneira adequada, com ferramentas de impacto imediato. Para quem tem interesse no assunto, Entre a glória e a vergonha, do jornalista e consultor de crises Mário Rosa, publicado no UOL é altamente recomendado.

Contra a pós-verdade, uma boa reputação.

Quando o problema é ‘’somente’’ uma informação falsa, ele se torna bem mais simples de se resolver. Mas em ambos os casos é muito importante contar com uma boa reputação, que deve ser construída anteriormente, e obviamente depende de uma atuação dentro da ética e das leis, que gere essa boa imagem. Não há ação de comunicação que esconda ou minimize fatos e comportamentos negativos eternamente.

O potencial destrutivo de um boato depende das “reservas de imagem” da vítima. Ou seja, o que, e de quem, se fala. Em um primeiro momento, uma boa reputação atua como uma blindagem que amortece o impacto inicial do boato. E como uma base para se reconstruir ou recuperar a imagem da marca posteriormente.

Há como se proteger de boatos utilizando técnicas de pós-verdade?

Até o presente momento, não apareceu nenhuma maneira de impedir que ocorram ataques à imagem de marcas e produtos de ataques, utilizando a pós verdade ou qualquer outra maneira. Não há, dentro dos valores de uma sociedade democrática, regras que impeçam preventivamente que as pessoas façam ou falem aquilo que desejarem. Entretanto, dentre as próprias ferramentas de marketing disponíveis hoje, existem três que podem reforçar a reputação dessas marcas e produtos.

A ferramenta mais importante são as redes sociais, porque é principalmente através delas que notícias negativas e boatos no formato pós verdade surgem e se tornam incontroláveis. Dessa maneira, não só é importante ter uma presença forte nas redes sociais, como monitora-las, mediar as interações com sua página oficial e principalmente utilizá-las para se posicionar.

A segunda ferramenta mais importante é o Marketing de Conteúdo com as melhores práticas do S.E.O. –Search Engine Optimization. Garantindo uma presença on line consistente, evita-se que o conteúdo negativo seja onipresente nas buscas que se faça pelos produtos ou pela marca.

Finalmente, o branded content, uma ferramenta normalmente muito eficiente para divulgar e posicionar marcas, seria também eficaz para se recuperar estragos causados por um ataque utilizando técnicas de pós verdade.

Lutando uma guerra desigual

Combater boatos maldosos sobre marcas e produtos é uma disputa desigual de narrativas, porque a tendência de qualquer vítima de boatos é apresentar os argumentos racionais que a defendem e provam que as acusações são falsas. Os boatos, por sua vez, apelam a emoções e sentimentos, nem sempre os melhores. Entretanto, imagine o potencial destrutivo que a pós-verdade pode ter sobre produtos e marcas que não oferecem conteúdo de qualidade, que reflita seus bons valores. A pessoa que recebeu a falsa informação não encontrará nada que possa despertar nela uma ponta de dúvida.

Em resumo, se sua empresa é vítima de informações falsas, é razoável falar que ela está no meio de uma guerra (suja) de comunicação. Não ter um conteúdo de qualidade, que passe credibilidade a quem o acessar, equivale a entrar desarmado nessa guerra.

Leituras recomendadas:

https://www.uol/noticias/especiais/mario-rosa-memorias-parte-1.htm

Links recomendados:

O site www.boatos.org é especializado em identificar e desmentir os boatos na internet.